Vale a Pena Transformar Hobby Em Profissão?

 

A clássica pergunta do hobby vs. trabalho. Tem gente que transformou o hobby em profissão, gostou e tá feliz. Tem gente que fez isso, se arrependeu e desfez. Talvez tenha tanto mistério em volta dessa questão por causa de frases como essa: 

Escolha um trabalho que você ame e não terás que trabalhar um único dia da sua vida.
— Confúcio

Será mesmo? SERÁ MESMO, CONFÚCIO??

transformar-hobby-em-profissao.png

O que muda quando você transforma um hobby em um trabalho? 

Um hobby é uma atividade que você faz por puro prazer no seu tempo livre (o que implica a existência de um tempo não livre, mas okay). É algo que te descansa, te revigora e geralmente não tem pressão nem cobrança nenhuma. Você faz na boa, no seu ritmo, do seu jeito, quando você tá a fim. 

Acho que só por essa descrição já dá pra perceber como um hobby é bem diferente de um trabalho. 

Digamos que você costure no seu tempo livre (não? Sou só eu?).

Você adora costurar, fica a noite inteira costurando sem se dar conta do tempo passando e o processo inteiro é prazeroso pra você. Aí você tem a ideia de começar a vender roupas, porque as pessoas sempre elogiam suas peças. Você até considera fazer graduação em Moda. Só pra sermos mais visuais, digamos que você vai costurar e vender vestidos lolita. É algo que você já ama fazer e que agora pode te trazer dinheiro. Como isso poderia dar errado? 

Momoko: a rainha das lolitas

Momoko: a rainha das lolitas

Aí você começa o seu negócio de vestidos lolita e pra sua alegria alguns clientes aparecem com encomendas. No começo tá tudo feliz porque você tá ganhando dinheiro pra fazer algo que você ama (O Sonho). Mas conforme você continua, você nota estresses que não existiam quando você só costurava pra você, por hobby. 

Você precisa se relacionar com clientes que nem sempre são fáceis ou educados. Mesmo que você tenha falado que o vestido fica pronto em 1 mês, tem gente mandando cinco e-mails depois de 1 semana perguntando por que você ainda não enviou o produto e ameaçando postar uma review negativa na sua página. Teve um mês em que você estava ocupado com outras coisas da vida e agora você precisa correr e costurar por 18 horas seguidas pra entregar tudo no prazo. Você fica desesperado quando a loja que você sempre vai fica sem aquela renda específica que você queria. Depois de enviar um vestido, uma cliente fala que ele não tá exatamente da cor que estava no computador dela e ela quer o dinheiro de volta. 

Eu te entendo, Momoko.

Eu te entendo, Momoko.

A questão é que em qualquer trabalho, você vai estar prestando um serviço ou entregando um produto para outra pessoa - e essa é a principal diferença entre um hobby e um trabalho. Quando tem outra pessoa envolvida, que vai pagar dinheiro pelo que você tá fazendo, vai ter exigências, vai ter prazos, vai ter expectativas, vai ter pressão. Não importa se é ilustração, pintura, fotografia, escrita ou qualquer outra coisa. 

 

O mito de trabalhar com o que se ama

Por causa de frases como aquela lá do começo, hoje em dia tem uma romantização absurda ao redor de "trabalhar com o que se ama". Como se isso significasse que você vai ser feliz o tempo todo, todos os dias, fazendo apenas coisas que você quer, sem nenhum obstáculo ou dificuldade. Trabalhe com o que você ama e vai chover unicórnios em cima de você. 

Não é bem assim. 

Com certeza é mais agradável trabalhar com alguma coisa que você gosta do que com algo que você não gosta. Não há dúvidas sobre isso.

E quando um amigo reclamar que fica o dia inteiro num escritório, trabalhando no computador e sendo constantemente interrompido por telefonemas e reuniões, você vai pensar "Uau, eu ganho dinheiro costurando em casa tomando chocolate quente com um gato ronronando no meu colo e recebendo agradecimentos diretos dos meus clientes. Nada a reclamar." 

Mas isso não significa que seu trabalho vai ser agradável o tempo todo. Ou que você nunca vai sentir como se estivesse, sabe, trabalhando. 

 

a experiência de uma fotógrafa, um ilustrador e dois autores

Apesar de gostar do que eu faço, meu trabalho não era exatamente um hobby (o que seria o hobby de uma orientadora profissional? Ouvir pessoas? Analisar currículos? Ler revistas de profissão por puro divertimento?). Então perguntei para uma fotógrafa e um ilustrador o que eles acham dessa transição de hobby para profissão e fui ver o que alguns autores dizem sobre isso. 

"Ouvi bastante que se fizesse o que amo e me esforçasse, com certeza daria certo e renderia dinheiro, mas não é bem assim. Tudo requer planejamento, estudo e também um tantinho de sorte (que só adianta se você estiver preparado para as oportunidades que aparecerem).

A verdade é que eu gosto de fotografia voltada para trabalhos autorais em Fine Arts. Isso não dá dinheiro e nem estabilidade, por isso não consigo ser "apenas artista". Preciso definir algum trabalho mais prático, por isso estou direcionando meus estudos para o ensino de artes e também estudos museais. Acredito que me frustarei menos nessas áreas do que se eu tentar, por exemplo, fazer fotos de bebês recém-nascidos (que eu já fiz). Ainda que eu goste de bebês e de fotografia, não quer dizer que juntar os dois foi uma boa ideia. Lidar com fotos para clientes não me traz satisfação." - Verônica (fotógrafa)

Mantenha seu emprego fixo. A verdade é que mesmo se você tiver sorte o bastante para sustentar-se com o que realmente ama, levará algum tempo até chegar a esse ponto. Até lá, você precisará de um emprego durante o dia.
— Austin Kleon, "Roube como um artista"

"Precisa ter autocrítica, entender seu estágio de desenvolvimento, buscar opinião especializada, receber críticas de portfólio, participar de eventos e descobrir o que existe. Porém, ao mesmo tempo não dá pra ficar engessado, esperando atingir um nível épico de primor artístico. Existe uma linha tênue entre a confiança e a arrogância, e entre a humildade e a autodepreciação.

Viver de quadrinhos no Brasil ainda é pra poucos. Na maioria das vezes o jeito é fazer paralelo com outras atividades, como ilustração, animação, concept pra games, e por aí vai" - Eduardo (ilustrador e quadrinista) 

Gritar com a criatividade, dizendo “Você precisa ganhar dinheiro para me sustentar!”, é quase como gritar com um gato. A criatividade não tem a menor ideia do que você está dizendo (...) Nem sei quantas vezes tive vontade de dizer a artistas estressados e quebrados financeiramente: “Cara, deixe de ser orgulhoso e arranje um emprego!”. Não há vergonha nenhuma em ter um emprego. Vergonha é espantar a criatividade exigindo que ela o sustente.
— Elizabeth Gilbert, "Grande Magia"

Como transformar um hobby em uma profissão

Depois de destruir todas as ilusões sobre "trabalhar com o que se ama" (foi mal), vamos terminar de um jeito positivo. 

E se você quiser transformar um hobby em um trabalho, sabendo que não é o mundo 100% cor de rosa que descrevem? Vão algumas dicas: 

  • Pesquise como o trabalho naquela área realmente é. Senão você pode acabar trabalhando com algo não relacionado ao seu hobby. Por exemplo, você gosta de desenhar e decide fazer Design porque você ainda não sabe que Design não significa desenho. Alguns anos depois você acaba trabalhando majoritariamente em empresas que usam programas de computador para os seus projetos, e não desenhos à mão. 
  • Cheque como é o dia-a-dia de quem trabalha com o que você gosta. Por exemplo, se você quer ser cozinheiro ou fotógrafo mas não está disposto a trabalhar em feriados, finais de semana e à noite, isso é um problema meio grande, porque boa parte das oportunidades para essas profissões são em feriados, finais de semana e à noite. 
  • Lembre-se de que tudo bem se você não amar o seu trabalho inteiro desde o primeiro dia. Isso é normal. Em algum momento você provavelmente vai poder escolher mais o que fazer e recusar trabalhos chatos, mas por algum tempo você meio que vai aceitar o que vier porque todos nós precisamos de dinheiro. 
  • Se possível, teste antes de se comprometer a viver de um hobby. Sites como o UpWork permitem que você ofereça seus serviços para clientes reais (design, webdesign, tradução, escrita, edição de vídeos, etc etc) e de fato ganhe algum dinheiro, mesmo que você não tenha formação na área. Outra possibilidade é ver se tem parentes, amigos ou conhecidos com quem você pode testar suas criações ou serviços. Experimente por um tempo do jeito que der e veja o que você acha. Tem gente que vai gostar, tem gente que vai preferir manter o hobby como hobby, e okay para qualquer resultado.

E por último, um lembrete importante: transformar um hobby em uma profissão não é a única forma de gostar do seu trabalho.

Você pode simplesmente ir atrás de algo que te interessa, ir conhecendo aos poucos, trabalhar com isso e passar a gostar cada dia mais. Ou apreciar o fato do seu emprego te dar uma rotina estável e uma vida tranquila. É até possível encontrar coisas positivas em trabalhos que a gente não gosta tanto mas mantém por X razões. 

Transformar um hobby em um trabalho pode valer a pena se você sabe realisticamente o que te espera e se você estiver aberto a diferentes oportunidades. E pode não valer a pena se acabar "estragando" uma atividade que era prazerosa pra você mas que agora só te faz ficar cansado e frustrado. 

No final, depende de cada um. E de aceitar que não é tão simples quanto "trabalhe com o que você ama e você nunca terá que trabalhar um dia da sua vida" ou sei lá o quê.