Por Que Testes Vocacionais Não Te Ajudam a Escolher Uma Profissão (E O Que Fazer Com Eles ao Invés Disso)

 

Se você tem acesso à internet e já se perguntou qual curso fazer, você provavelmente já fez um teste vocacional online (e se não fez, você provavelmente vai procurar um no Google, mas espero que seja depois de ler este post!)

Você sabe como é um teste vocacional: você passa uns 10 minutos escolhendo qual bolinha apertar na esperança de que aquelas perguntas te examinem num nível muito mais profundo do que você jamais seria capaz de se conhecer.

Aí no final você quer que o teste diga exatamente qual o curso certo para você, aquele que melhor combina sua personalidade, seus interesses, seus talentos, sua visão de mundo, seu senso de humor, seu número de sapato, etc etc, com a ~carreira ideal~ na qual você seria para sempre feliz ou não tão miserável, dependendo de como você vê a vida e o trabalho.

Responder um teste vocacional é divertido - quem não gosta de falar sobre si mesmo? - mas a parte não tão divertida é quando as perguntas acabam e o teste te devolve as respostas.

Ou o teste vocacional te mostra cursos que você já queria - e não ajuda em nada sua vida - ou te mostra cursos nos quais você nunca pensou porque são nada a ver - e não ajuda em nada sua vida.

Seja lá qual tenha sido a sua experiência, a questão é que testes vocacionais têm um poder limitado, e a sua escolha de curso não deveria depender do que um teste da internet diz (sério, cadê a sua vontade nisso?)

Por isso, vou te contar 5 motivos do porquê testes vocacionais não ajudam a escolher uma profissão, e depois vou dar uma dica de como usá-los melhor. Porque eu sei que mesmo sabendo de tudo isso, testes vocacionais ainda são atrativos e todo mundo quer fazer mais um, mesmo que só por diversão.

 

1. Porque testes vocacionais não existem (tan-tan-taam)

“Mas, mas, mas eu fiz um na internet, foi de um site confiável, tenho até o link…”

Tem um monte de coisas na internet, meu amigo. Não significa que são todas reais.

Acontece que o que chamam por aí de “teste vocacional” não é teste vocacional coisa nenhuma. Geralmente é um teste de personalidade meio combinado com um teste de interesses. E que é tão científico quanto um teste de "Qual personagem de anime você é?". Isso pode até parecer uma questão técnica, mas eu juro que não é. 

Se testes vocacionais existissem, eles teriam que: 1. analisar TUDO sobre você do presente e do futuro; 2. analisar TUDO sobre TODAS as profissões e TODO o mundo do trabalho do presente e do futuro, 3. cruzar TODOS esses dados. Em outras palavras, é impossível.

Tem orientadores profissionais que aplicam testes, mas nenhum deles é um "teste vocacional", porque isso não existe. E se for um psicólogo aplicando, o teste provavelmente é de verdade. Tipo, científico. E eles servem mais para o orientador te conhecer do que para você escolher um curso. 

 

2. Porque existem infinitas maneiras de ser uma profissão e testes vocacionais só pegam o estereótipo

Como você acha que testes vocacionais chegam naqueles resultados bonitinhos?

O que eles tentam fazer é captar a sua personalidade e os seus interesses, e aí combinar isso com o “perfil” de cada profissão.

E é aí que entra um dos ENORMES problemas de testes vocacionais: é impossível listar todas as possibilidades dentro de uma única profissão ou curso. Então geralmente eles ficam no senso comum e nos estereótipos das profissões. Mas senso comum e estereótipos não dão conta da realidade.

Nem todo professor quer trabalhar em sala de aula, nem todo psicólogo é um mestre da empatia, nem todo artista está constantemente em um nirvana criativo, nem todo engenheiro detesta literatura.

Existem todos os tipos de qualquer profissional, e o simples fato de você ser tímido e introvertido não te impede de ser um ótimo ator, jornalista ou administrador.

Uma pessoa pode estudar medicina porque quer salvar vidas na sala de emergência, porque quer fazer pesquisas em laboratórios, porque quer melhorar o sistema de saúde e administrar hospitais, porque quer ter relações próximas com seus pacientes, porque só quer ter contato com pessoas anestesiadas em cirurgias… Ou porque é o curso mais difícil de entrar, que dá status social e a promessa de salários altos (e essa pessoa também pode se tornar uma ótima médica, tá?) Sem contar que ninguém precisa seguir em medicina só porque se graduou em medicina.

Existem tantas maneiras de ser uma profissão quanto existem pessoas no mundo, e no final você vai ter o seu jeito de ser a sua profissão.

 

3. Porque testes vocacionais não conseguem predizer o seu sucesso em uma carreira

Digamos que você tenha facilidade com línguas e ótima comunicação oral e escrita.

Okay, esses são elementos importantes em cursos como Letras e Relações Internacionais.

Mas é possível dizer com 100% de certeza que você vai ser um bom professor/tradutor/diplomata só por causa dessas habilidades?

Se você tiver dificuldade nessas coisas e seguir mesmo assim em algum desses cursos, você está fadado ao fracasso?

E não dá para usar essas habilidades em mais nenhuma outra carreira?

Facilidade com alguma coisa só significa isso: facilidade com alguma coisa. Não significa sucesso nem fracasso automático em uma carreira específica. 

Como você vai usar as suas facilidades, dificuldades e oportunidades - isso é com você.

 

4. Porque tem mais coisa envolvida em uma escolha profissional do que personalidade e interesses

Correndo o risco de levar patada de colegas psicólogos, não é só a sua personalidade e interesses que importam quando você escolhe um curso.

Esse é um terreno que pode ficar complicado, então vou dar exemplos.

Para começar, nem sempre a gente quer trabalhar com o que a gente é bom. E nem sempre a gente é bom naquilo que a gente gosta. Fazer o quê, acontece.

Talvez você tenha um verdadeiro talento para desenho, e todos à sua volta dizem que seria um desperdício não ganhar dinheiro com isso, mas você não está nem aí para os seus desenhos incríveis (ou você quer manter isso como hobby) e quer mesmo fazer Administração ou Relações Públicas e trabalhar numa empresa gigante em outro país.

Mesmo que você não tenha a menor ideia se tem facilidade com seja lá o que tenha em Administração e Relações Públicas.

Outros casos: você não quer ir contra a vontade dos seus pais e eles querem que você faça algo que para você soa inacreditavelmente chato. Ou você quer um curso que não existe no Brasil. Ou você é um cara que quer Enfermagem e as pessoas te zoam por isso, ou você é uma garota que quer Engenharia Civil e as pessoas te enchem por isso.

São tantas as situações, tantas coisas que levamos em conta quando escolhemos um curso, como esperar que um teste vocacional aponte o melhor caminho para você?

 

5. Porque você vai mudar

Testes vocacionais medem o que você é agora. Não o que você pode se tornar.

E com todas as experiências que você vai ter, espere mudar bastante entre os 15 e os 25 anos, só para citar os anos de colégio, faculdade e início de carreira.

E essa é uma das coisas mais divertidas da vida. Nós mudamos, nossos valores mudam, nós perdemos interesses, ganhamos novos, treinamos habilidades, descobrimos coisas de que gostamos e nem sabíamos que existiam.

E especialmente: ninguém entra na faculdade já sendo um profissional. As pessoas se tornam profissionais conforme vão fazendo o curso e trabalhando na área. 

Então não se preocupe tanto se um teste te diz que você não pode fazer um curso porque você não tem as "habilidades" ou o "perfil" necessário, porque tem muita coisa que a gente aprende fazendo.

 

Como Fazer Testes Vocacionais De Um Jeito Que Te Ajude Em Alguma Coisa

Então você leu tudo e mesmo assim quer fazer um teste vocacional online “só porque é divertido.”

Okay okay, eu entendo.

Mas se for fazer um, aqui vai a dica principal para que ele possa de fato te ajudar na sua escolha:

Ignore os resultados do teste vocacional.

Faça pelas perguntas.

Sejamos honestos, nós respondemos testes vocacionais para dar as profissões que queremos. Talvez o que a gente busque de verdade é só uma confirmação de uma fonte externa e imparcial que diga “olha, eu sou um teste externo e imparcial e você realmente combina com tais e tais cursos”.

Mas no fundo a gente já sabe o que quer ou o que a gente tem mais interesse (ou não, que é quando o teste dá resultados nada a ver).

Então quando fizer um teste vocacional, preste atenção no que ele está te perguntando.

A pergunta é sobre seus gostos? Seu jeito de ser? Seus valores? Sua maneira de estudar e trabalhar?

A partir daí, pense por si mesmo.

Mas não em relação a que curso fazer. Pense de maneira geral o que essas perguntas e as suas respostas dizem sobre você.

Escolha uma das opções e pergunte-se: “Por que eu escolhi isso?”

Por exemplo, o teste te pergunta qual pessoa famosa você mais admira. Você pensa em cada uma e escolhe. Então se pergunte: O que eu admiro nessa pessoa? O que ela tem ou é que eu também gostaria de ter ou ser?

É legal quando um teste nos dá uma pergunta sobre a qual nunca pensamos - e assim a gente conhece um pouco mais de nós mesmos e sobre como fazemos escolhas.

Autoconhecimento é algo importante em qualquer momento da vida, e isso sim pode te ajudar a escolher uma profissão.

Afinal, parar de ser totalmente dependentes de validações externas e aleatórias e fazer nossas próprias escolhas é uma das partes mais gratificantes de crescer e ir viver nossas próprias vidas.