"Mudei de curso duas vezes e estudei na UNESP, na USP e na Unicamp"

 

Eu já pensei em mudar de curso durante a faculdade. Cheguei até a estudar de novo para o vestibular, mas acabei desistindo e continuei onde estava (por sorte passei a gostar muito do curso no ano seguinte!) Como eu nunca tive a experiência de mudar de curso, mas sei que é algo comum e que muitas pessoas têm dúvidas, procurei alguém que já passou por isso para contar como foi.

E foi assim que acabei tendo uma ótima conversa com o Rafael, que mudou de curso duas vezes: primeiro fez Jornalismo na UNESP, depois Economia na USP e agora está fazendo Administração (ADM) na Unicamp.

Se você está pensando em mudar de curso e escolher um novo caminho para si mesmo, espero que essa entrevista te ajude de alguma forma. Nem que seja só pra saciar sua curiosidade sobre a vida de outra pessoa!

Começa me falando da sua história de forma geral, em relação à faculdade.

Rafael: Antes de tudo, começa com um sonho que eu tinha. Quando eu era criança eu queria ser jogador de futebol. Como não deu certo, eu já fiquei meio perdido, não sabia o que eu queria de verdade. Aí eu pensei em jornalismo, jornalismo esportivo voltado pra futebol.

Você tentou ser jogador de futebol de verdade? Ou era um sonho meio de criança?

Rafael: Eu tentei. Eu cheguei a jogar em time de base, mas não passou disso. Aí eu prestei Jornalismo na UNESP de Bauru, pensando mais na parte de escrever. Na verdade eu não tinha noção de como era ser jornalista, aí ao entrar na faculdade, eu vi que era muito diferente. Pra você ser redator, você tem que passar por um monte de processos, e um deles é ser repórter. E eu odiei essa parte. Eu não gosto muito de ficar correndo atrás de história, correndo atrás das pessoas, ficar enchendo o saco das pessoas pra conseguir entrevista. Aí por isso que eu já larguei rapidamente, em 4 meses.

Aí eu voltei a fazer cursinho. Quando eu voltei a fazer cursinho, eu não tinha noção nenhuma do que eu queria, só sabia que era ligado a um pouco de Humanas, mas eu sentia falta de Matemática. Daí que surgiu Economia. Sei lá, foi surgindo. Fiz dois anos de cursinho e passei em Economia na USP.

Aí o problema de Economia é que é um curso - pelo menos na FEA - muito teórico, não tem nada prático. E eu comecei a levar com a barriga. Eu tinha a visão de que eu tava na USP então eu meio que já tava bem na vida, sabe? A questão era só me formar e sei lá, arranjar emprego e seguir a vida. Mas como eu tava meio vagabundo, indo muito mal nas aulas e pegando muita DP, comecei a me desmotivar.

Foi aí que teve um estado que eu falei “Bom, se eu continuar assim não vai dar em nada.” Aí eu comecei a ir atrás de estágio. Mas aí a FEA tem um critério meio rigoroso pra assinatura de estágio, que tem que ter nota mínima 5,0. Só que a minha nota tava abaixo de 5,0. Isso começou a me desmotivar mais ainda e eu não tava mais conseguindo levar a faculdade. Aí isso fez eu frequentar psicólogo e conversar com meus pais. Foi aí que eu tive a vontade de desistir e começar de novo.

Você tava em que ano?

Rafael: Eu tava no 3º, indo pro 4º, e Economia são 5 anos. Mas faltava mais uns 3 anos pra mim, por causa das DPs. Aí ADM na Unicamp eu escolhi porque eu já tinha um conhecimento prévio, por causa da Economia, e sabia que tinha mais coisa prática no curso. Aí por enquanto eu tô gostando bastante. Tem muito trabalho, muita apresentação, eu nunca fico parado

O que você esperava encontrar em cada um dos cursos que você acabou largando? O que você sabia sobre os cursos antes de entrar?

Rafael: Então, eu não pesquisei quase nada. Esse que é o problema.

E de ADM, você pesquisou?

Rafael: Sim, eu cheguei a conversar com dois amigos da FEA, que também mudaram. Eram de Economia e passaram pra ADM.

Poxa, a galera não gosta de Economia? Parece tão legal!

Rafael: É interessante, mas é que é muito denso. A Economia na FEA é mais voltada pra área acadêmica. O curso é muito teórico, aí acho que a galera não gosta. Eu conversei com dois amigos, perguntei o que que motivou eles a mudar e se eles tavam gostando agora. E todas as respostas foram positivas.

E como foi a reação da sua família quando você decidiu mudar de curso?

Rafael: Então, meu irmão mais novo tava meio perdidão também, ele até tá comigo na Unicamp, a gente passou junto. Ele mudou de curso mais que eu. É que ele nunca fez muito tempo, mas ele já fez Educação Física, Ciências Sociais, SI (Sistemas da Informação) e agora ADM. Mas meus pais são bem flexíveis, é só mais pressão pra adquirir alguma renda logo.

Eu vejo que uma preocupação comum entre pessoas que estão mudando de curso ou querem mudar é “Eu tô ficando velho, eu não vou conseguir entrar no mercado de trabalho…” Como é isso pra você?

Rafael: Eu tenho um medinho ainda, mas penso que se eu quiser de verdade, eu consigo. Não sei se sou meio orgulhoso, mas acredito que se tiver algo que eu encontre e que eu goste de verdade, idade não vai ser empecilho pra mim. Mas mesmo assim, se for, eu penso em prestar concurso público, essas coisas. Dá pra você achar outros jeitos.

Agora você tá em que ano da ADM?

Rafael: Eu tô no 2º e ADM são 4 anos.

Você pretende estagiar?

Rafael: Sim, eu tô tentando pegar estágio agora já. Mas é que lá em Limeira, pelo menos pra 2º ano, tem pouco, aí eu não tô conseguindo.

E você já sabe que áreas da ADM você tem mais interesse?

Rafael: Não, nenhuma. Na verdade vou pelo que me aceitarem, que eu não conheço. Eu trabalhei um pouquinho como assistente administrativo aí tenho um pouco de noção dessa parte, mas só. Isso foi quando eu tava fazendo Economia, que eu trabalhei pra uma microempresa do meu tio.

Então só pra eu entender a sua linha do tempo, você terminou o colégio e aí…

Rafael: Eu fiz 2 anos de cursinho pra Jornalismo e depois 2 anos pra Economia. Aí eu larguei Economia no meio do 3º ano, comecei a estudar pro vestibular de novo e passei em ADM no ano seguinte.

Qual foi a parte mais difícil de mudar de curso?

Rafael: A primeira mudança foi fácil, porque eu já vi de cara que eu não ia conseguir. A segunda mudança foi mais por eu não ter levado o estudo muito a sério. Não sei se hoje em dia eu gosto do curso em si ou se foi meu mindset que mudou, sabe? Ou se foram os dois.

Mas é mais questão de já estar no fundo do poço, não conseguindo mais fazer nada, não querendo estudar nada, aí foi quando eu comecei a frequentar psicólogo e comecei a conversar com meus pais. No começo, eu sentia muita vergonha de mim mesmo, por já estar mais velho sem trabalhar e sem estar formado. Mas eu percebi que dando um passo pra trás seria o melhor pra mim naquele momento. Aí hoje eu dia eu não ligo. Eu vejo que (eu acho que né) fiz a escolha certa.

Quando você fez a escolha de mudar de curso, você tinha certeza da sua escolha, você tava confiante da sua escolha?

Rafael: Ah, não, não. Por isso que eu fui atrás de psicólogo e fui conversar com meus pais. É muita coisa pra você tomar a decisão assim sozinho.

Teve algo que seus pais ou sua psicóloga disseram que te ajudou nesse momento?

Rafael: Acho que a parte de eu não sentir vergonha de mim mesmo. E meus pais falaram que me apoiavam na minha decisão. Aí já deu uma aliviada. Porque não sei como é sua família, mas família de asiático costuma ser bem rígida com estudos. Eu achei que meus pais também eram, mas conversando vi que não é bem assim, que tem uma flexibilidade pra conversa e pra aceitação dessas coisas.

Meu pai mesmo mudou de curso duas vezes, só que ele já trabalhava desde, tipo, 15 anos. Aí ele entende o porquê da gente ficar mudando. Ele terminou fazendo ADM também, na UnB, só que ele fez ADM mais velho. Antes disso ele fez Matemática na USP e Engenharia na Unicamp. Aí acho que ele entende o nosso lado. É que minha mãe não fez faculdade, aí não sei se conversando com ele, ela começou a entender.

E como você tá agora, tá feliz?

Rafael: É… Feliz-feliz não tô né (risos). Mas tô bem, não sinto peso de ir pra faculdade. Que naquela época eu tava sentindo, não dava nem vontade de sair de casa pra ir pra faculdade. A psicóloga não me disse que eu tava deprimido nem nada, mas talvez eu tenha ficado antes de ir na psicóloga.

E você fez 3 faculdades diferentes né. Você ficou pouco tempo na UNESP, mas o que você notou de diferença nas faculdades?

Rafael: O que eu percebo muito é que em faculdade no interior as pessoas são bem mais próximas. Alunos e até professores, porque como poucas pessoas acabam morando com os pais, elas se unem. Na FEA eu não cheguei a fazer muitos amigos, era mais colegas. No interior as pessoas parecem mais simpáticas, talvez eu também fique mais simpático. E não sei se é por causa do clima também, que não tem correria de cidade grande, aí eu também fico melhor. É meio difícil definir essas coisas, não sei se sou eu ou se são as pessoas.

Mas a aula em si, eu acho que em Jornalismo tinha bastante contato com professor porque era uma turma pequena. Na FEA essa relação aluno-professor é muito distante, porque tem muito aluno. E na Unicamp é mais ou menos. Mas em relação à aula, de passar matéria, não vejo muita diferença.

Hoje em dia, o que você quer pra sua vida?

Rafael: Ah, só quero ser feliz. Ter condições pra viver bem e ser feliz.

E você que já passou por mudanças de cursos, que conselho ou dica você daria pra pessoas que estão passando pela mesma coisa?

Rafael: É sempre bom você conversar com alguém, nunca tomar a decisão sozinho. Pessoas mais velhas têm mais experiência, então talvez já tenham passado por isso. E se você realmente tem certeza do que você quer, pra você não ter medo e seguir com seu sonho.