8 Coisas Que Aprendi Sobre Trabalho Jogando Videogame + Como Aplico Isso Na Minha Vida Real

 

Videogames fizeram parte da minha vida desde antes de eu aprender a ler. E muito do que eu sei de inglês hoje foi graças às horas e horas que passei na frente de uma tela melhorando a minha fazenda ou fazendo amizade com animaizinhos simpáticos.

Mesmo assim, nunca me considerei uma gamer de verdade, porque eu só jogava a mesma meia dúzia de jogos por anos *não consegue superar um jogo favorito*. Além disso, nenhum deles são os super ~hyped~, como League of Legends ou Counter Strike ou sei lá o que faz/fez muito sucesso. Halo? Undertale?

Apesar de não jogar muito desde a faculdade, videogames ainda são uma parte querida da minha vida, que me deu horas de alegria, diversão e conexão com meus irmãos e amigos.

E uma coisa que eu não esperava é que videogames também me ensinaram algumas coisas sobre trabalho. Porque afinal, jogar videogame é um trabalho.

Loucura da moça asiática privilegiada que passou a infância na frente da TV e agora tá querendo chamar isso de trabalho? Em boa parte sim, mas não tirei essa frase da minha cabeça. Quem disse isso foi a Jane McGonigal, game designer americana e autora do livro “A realidade em jogo”, que fala sobre como videogames podem nos ajudar a viver vidas com mais sentido e construir uma sociedade melhor.

Yep. Essa sim realmente ama videogames.

Onde, no mundo real, existe esse sentimento de estar inteiramente vivo, focado e ativo em todos os momentos? Onde está a sensação de poder, de propósito heróico e senso de comunidade? Onde estão as alegrias típicas de jogos criativos e estimulantes?
— Jane McGonigal, A Realidade em Jogo

Segundo a Jane McGonigal, videogames podem nos ajudar porque eles são o modelo perfeito de trabalho com sentido. Não que você vá ganhar dinheiro jogando videogame (apesar de ter gente e mais gente fazendo exatamente isso agora mesmo), mas pensando que trabalho é qualquer esforço feito para alcançar um objetivo, jogar videogame pode sim ser considerado um trabalho.

Para a autora, os jogos nos fazem felizes porque eles são um trabalho árduo que nós escolhemos fazer. E se nós analisarmos todas as outras coisas que fazem videogames serem tão envolventes e passarmos isso para o “mundo real”, poderemos construir vidas de trabalho mais realizadoras. Então aqui estão 8 coisas que aprendi sobre trabalho jogando videogame e como eu transfiro isso para o meu trabalho real.

 

1. Ver os resultados do seu trabalho é super motivador (até viciante)

Segundo a Jane McGonigal e muito da teoria de gamification, um dos fatores mais viciantes de jogos é a sensação de melhorar e progredir. Porque a gente gosta de sentir que está indo pra frente.

Essa já é uma estratégia usada em apps como Duolingo, por exemplo, que estrutura a aprendizagem de uma língua estrangeira em níveis e habilidades especiais.

Nós ficamos felizes de ver nosso personagem passando de nível ou nosso império se expandindo. Ver os resultados concretos do nosso trabalho é viciante. A autora até chega a dizer que:

“Jogamos para nos ajudar a aliviar a sensação frustrante de que, em nosso trabalho real, não estamos fazendo nenhum progresso ou causando qualquer impacto.”

Ouch.

Pois é.

Lição de videogames para a vida #1: procure os resultados do seu trabalho e torne-os o mais visíveis possível!

Resultados do meu trabalho em Animal Crossing: flores, uma personagem fofa, mais flores e arcos de flores para ver o meu amor passar.

Resultados do meu trabalho em Animal Crossing: flores, uma personagem fofa, mais flores e arcos de flores para ver o meu amor passar.

 

2. A graça acaba quando você domina o jogo

Dominar um jogo e sentir que você está progredindo é super viciante. A aprendizagem é uma ótima droga.

Maaas chega uma hora em que você zera o jogo, consegue fazer tudo facilmente e não tem mais nada para aprender ou dominar. Aí basicamente acabou. Hora de ir pra outro lugar, fazer outra coisa e continuar alimentando o vício.

Então quando vierem com aquele papo de “tem que estar sempre aprendendo, não pode parar de estudar e se atualizar senão fica pra trás, baw bah baw”, fique tranquilo porque o mais natural (e divertido) é a gente querer continuar aprendendo mesmo.

Harvest Moon 64: Depois que você expande ao máximo sua fazenda, enche seus pastos de animais, casa com a garota dos seus sonhos, tem um filho fofo com ela, vira BFF de todos do vilarejo, planta tudo que a terra é capaz de dar e acumula tanto dinheiro que nem tem mais onde gastar, a única coisa legal que resta é deletar o  file  e começar de novo em outra vida

Harvest Moon 64: Depois que você expande ao máximo sua fazenda, enche seus pastos de animais, casa com a garota dos seus sonhos, tem um filho fofo com ela, vira BFF de todos do vilarejo, planta tudo que a terra é capaz de dar e acumula tanto dinheiro que nem tem mais onde gastar, a única coisa legal que resta é deletar o file e começar de novo em outra vida

 

3. Upar é meio chato mas facilita a sua vida mais pra frente

Eu sei que eu acabei de falar que é legal passar de nível, mas muitas vezes o que você tem que fazer para ver sua barra de experiência subir é… não tão legal.

No começo é até mais ou menos divertido mas uma hora inevitavelmente fica chato.

O equivalente disso em um trabalho são aquelas tarefas repetitivas que não requerem muito do seu cérebro ou das suas habilidades. Como copiar e colar informações de um arquivo para outro ou tirar um milhão de cópias de um documento.

Mas eis a questão: tem tanta gente que não se esforça nessas tarefas menores porque se considera ~bom demais para tirar xerox~ que se você fizer essas coisinhas bem, você já vai se destacar. Porque sério. Se uma pessoa não faz bem tarefas simples, por que alguém lhe daria trabalhos mais difíceis?

Upar é meio chato às vezes sim, mas é um bom jeito de ir construindo sua autoconfiança para enfrentar desafios maiores no futuro.

Derrotar pokémons selvagens agora para ganhar dos líderes de ginásio depois

Derrotar pokémons selvagens agora para ganhar dos líderes de ginásio depois

 

4. Se você não sabe como fazer algo, procure no Google

Isso é uma coisa da qual eu não me orgulho, mas teve uma vez que eu travei em um jogo e minhas habilidades de detetive/advogada não foram o suficiente para solucionar um caso.

Aí… É… Eu fui procurar a resposta no Google.

Phoenix Wright: Tinha que provar que esse carinha aí era inocente, mas eu tava achando que ele era o assassino mesmo

Phoenix Wright: Tinha que provar que esse carinha aí era inocente, mas eu tava achando que ele era o assassino mesmo

Orgulho ferido de lado, a lição é que as pessoas compartilham todo tipo de coisa útil e legal na internet (especialmente gamers, eita comunidade dedicada).

Não sabe como fazer alguma coisa no Excel? Procura no Google. Quer aprender jeitos de ganhar dinheiro sem ter um emprego? Procura no Google. Vai pra uma entrevista de uma empresa B2B mas não tem a menor ideia do que é uma empresa B2B? O Google ensina. Tá pensando em fazer pós-graduação mas não sabe qual escolher? Opa, esse eu tenho aqui ;)

Não que você vá encontrar só boas respostas, tem que ter filtro e senso crítico, né. Mas tem tanta coisa boa e super específica que eu não esperava encontrar (tipo como superar um corte de cabelo ruim) que agora eu sempre dou uma olhada no que a internet tem a me dizer.

 

5. É divertido alternar entre atividades diferentes e ter várias fontes de renda

Ter mais de uma fonte de renda é um conselho comum no mundo das finanças pessoais. Assim sua entrada de dinheiro não fica dependente de apenas um emprego/empresa/cliente/produto. Isso não é algo que todos podem ou querem fazer, mas percebi que eu pessoalmente gosto disso e me sinto confortável tendo mais de uma fonte de renda na vida real.

Tem até esse estudo que diz que variedade, aprendizagem contínua e autonomia são características importantes de um trabalho realizador e com sentido.

Teve um jogo específico em que eu fazia isso. Eu tinha renda ativa como vendedora de roupa, cabeleireira, maquiadora, designer, decoradora e modelo, e ainda tinha renda passiva alugando imóveis.

É. Eu jogava um jogo em que eu trabalhava sem parar. Essa sou eu.

Até tinha a opção de passear com garotas da cidade e ficar fazendo social, mas o jogo é meu e eu jogo do jeito que eu quiser ((insira analogia com a vida aqui)).

Wagamama Fashion Girls : Eu passei tempo demais vendendo roupas nessa lojinha

Wagamama Fashion Girls: Eu passei tempo demais vendendo roupas nessa lojinha

 

6. Mas não é legal fazer várias coisas ao mesmo tempo

Fazer várias coisas ao mesmo tempo é conhecido como multitasking, e ainda que tecnicamente você não esteja fazendo várias coisas ao mesmo tempo - você está só alternando rapidamente entre cada atividade - multitasking é uma coisa que eu sei que eu não consigo fazer porque eu acho muito cansativo.

E foi um certo jogo de computador que me ensinou isso: Ragnarok.

Uma das minhas personagens favoritas era uma sacerdotisa suporte, o que significa que eu ficava parada no mesmo lugar apertando um monte de teclas, curando o meu grupo, recrutando novos membros, administrando a fila de espera, respondendo pessoas rudes, intermediando conflitos dentro do grupo e correndo feito louca para ir ao banheiro quando eu tinha vinte segundos de paz.

Eu adorava e odiava isso.

Era super envolvente porque sempre tinha algo para fazer. Quer dizer, sempre tinha mais de uma coisa para fazer, e normalmente ao mesmo tempo. Mas era super cansativo não ter pausas, ser requisitada o tempo todo por pessoas impacientes e ficar vigiando quando eu podia ir ao banheiro.

Se em um jogo, onde eu estou por livre e espontânea vontade, eu não consigo fazer várias tarefas ao mesmo tempo sem intervalos, imagina se eu fizesse isso oito horas por dia todo dia em um emprego.

No-no-no.

Obrigada, Ragnarok, por me mostrar que eu não sobreviveria em um trabalho desse tipo.

Ser a Senhorita Enfermeira provavelmente foi o trabalho mais estressante que eu já tive e que eu já terei na vida.

Ser a Senhorita Enfermeira provavelmente foi o trabalho mais estressante que eu já tive e que eu já terei na vida.

 

7. Mas não fazer nada é menos glamouroso do que parece

Outra lição de Ragnarok porque eu joguei muito esse jogo. Muito mesmo.

Depois do trauma da sacerdotisa, eu criei uma personagem odalisca e meu noivo criou um bardo. O plano era nós jogarmos juntos em grupos usando uma habilidade em dupla, e a única coisa que a gente precisava fazer era apertar uma tecla a cada 60 segundos. E nem precisava ser os dois apertando ao mesmo tempo, só um de nós tinha que apertar.

Nós imaginávamos que essa era a vida boa, de puro glamour e tranquilidade, onde a xp vem fácil e todos do grupo gostam de nós.

Mas nós jogamos assim por menos de duas horas.

Porque era muito. Chato.

E isso foi algo que eu percebi em um dos meus estágios (reais) também.

Por mais que os projetos e os processos fossem trabalhosos, os dias mais chatos eram aqueles em que não tinha nada para fazer.

Com a cultura (muito triste por sinal) de “odiar seu trabalho e esperar pela sexta-feira”, parece contra-intuitivo que alguém não goste de ficar sem fazer nada no trabalho. Nem sei explicar, é uma coisa que você só entende quando experiencia.

Então quando eu ficava sem fazer nada naquele estágio, por exemplo, eu simplesmente saía procurando alguma coisa para fazer. Organizar o banco de currículos, zerar minha caixa de e-mail, assistir um curso online relacionado, até procurar um papel de parede motivador.

“Você aperta a tecla enquanto eu fico aqui lendo esse livro. Uau, isso é tão divertido. Só que não.”

“Você aperta a tecla enquanto eu fico aqui lendo esse livro. Uau, isso é tão divertido. Só que não.”

 

8. No final, por mais que eu ame meu trabalho, a coisa mais importante da vida sempre será as pessoas

Por último, a lição do meu jogo favorito e que eu nunca vou jogar de novo porque eu me recuso a passar por aquela tortura emocional mais uma vez.

Eu sou uma pessoa muito sortuda e privilegiada por poder escolher trabalhar com algo que eu amo de um jeito que me agrada. E eu sou muito grata por isso. Tão grata que eu fico ainda com mais vontade e ainda mais feliz de poder ajudar outras pessoas a construir trabalhos que fazem sentido para elas.

Mas eu também sei que mesmo assim, meu trabalho não é a coisa mais importante para mim. Eu adoro esse blog, amo atender e estudar, e acho mágico ganhar dinheiro para escrever para outros lugares (eu escrevo palavras e me dão dinheiro, o quão louco é isso??), mas não é em nada disso que eu vou pensar quando eu estiver nos meus últimos dias, minutos ou segundos de vida.

Eu vou pensar nas pessoas.

Cada dia em que estou viva e as pessoas que eu amo também estão vivas é valioso.

E sim, essa é uma reflexão que um jogo pode causar. Porque como a Jane McGonigal diz, um bom jogo é capaz de mudar para sempre a maneira como você se percebe e como você percebe o mundo.

Esse também é um conselho da Psicologia Positiva e presente no livro: pense um pouco na morte todos os dias para melhorar sua vida agora.

Life is Strange acabou com o meu coração e me fez rever minhas prioridades na vida

Life is Strange acabou com o meu coração e me fez rever minhas prioridades na vida

Os jogos não nos desviam de nossas vidas reais; eles preenchem nossas vidas reais: com emoções positivas, atividade positiva, experiência positiva e forças positivas. Nosso grande desafio de hoje em dia é promover uma maior integração dos jogos a nossas vidas cotidianas, e abraçá-los como uma plataforma para a colaboração em nossos mais importantes esforços.
— Jane McGonigal, A Realidade em Jogo

Apesar desse post ser totalmente focado em videogames, a verdade é que eu acredito que qualquer experiência é uma oportunidade para aprender, se você der uma pausa (trocadilho não intencional) e pensar sobre o que se está vivendo.

E você, já teve alguma lição de vida de videogames?